Crônica Sonora

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Conheci Joanna num sábado à noite, batom vermelho, gargalhando em uma mesa de bar. Sua aura cintilava em roxo neon, era envolta em magia e alegria. Se tivesse nascido e vivido em outro tempo Joanna seria o que chamamos de feiticeira, uma revolucionária, uma feminista ou uma militante, aos poucos nos tornamos amigos e um pouco mais, eram altos papos em muitas madrugadas e também muitos beijos molhados. 

Ela me contava histórias hilárias, como o dia em que ficou com um cara famoso qualquer, e teve a noite que passou com uma garota. Mas ontem eu não estive com ela, não existe nada além do bom dia que enviou ao meu celular. Na realidade, faziam semanas que não a via, que não trocávamos beijos, saliva e fluídos, mesmo nos falando todos os dias.

Hoje acordei com a batida da polícia em minha porta, eu estava sendo preso, acusado de matá-la. Fiquei entorpecido e sem reagir enquanto minha mente gritava:

“Como assim Joanna está morta?”

Não conseguia entender a enormidade de tudo, enquanto era arrastado e algemado. Evidências comprovavam que eu fui o último a falar com ela, e por falar eu digo um áudio enviado desejando bom dia. Não me deixavam pensar, enquanto me manipulavam e me jogavam de um lado para o outro. Checavam minhas digitais e me acusavam de arrancar sua vida.

Ninguém ouvia meus gritos procurando informações.

“Como Joanna foi morta?”, ninguém entendia que eu estava sofrendo, que ela a melhor parte de mim, que seu sorriso safado me fazia um homem melhor. Ela estava morta e eu nem sabia o que tinha acontecido,quem avisou a polícia, ou onde a encontraram. A mulher que despertava a vida em mim não tinha mais vida e ninguém sequer se preocupou que talvez eu não fosse o culpado, que eu estivesse sofrendo.

Enquanto era diversas vezes interrogado, meu coração batia apressado, e meus olhos derramavam as mais sinceras lágrimas de sua existência, eu estava despedaçado, ela havia partido. Ela nunca soube o que eu sentia.

Eu só queria que todos eles se calassem afinal: — Eu não matei Joanna D’arc.


Crônica Sonora, é uma coluna semanal inspirada em alguma canção de sucesso. 

A desta semana foi inspirada na canção da banda Camisa de Vênus, cujo a letra você encontra aqui.

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